Ainda


De fora desse seu mundo 
Te vejo, te escuto 
E procuro decifrar esse silêncio 
Intenso, profundo 
Que sempre me cala.

Só a solidão dos teus acordes 
Desperta minhas mãos 
Só a rouquidão dessas palavras 
Tenta te trazer de volta, em vão 

O que nos aproxima, enfim, 
Talvez não seja tão capaz 
De unir ao que falta um pouco 
E sanar um coração tão louco 

Ainda não foi dessa vez 
Mas é parte da tentativa de
ainda,
me sentir mais viva.

Vozes



Sombra e frio, lugar de silêncio sem fim.

Ondas de abismo criam imagens de um tormento

Que ameaça não passar.

Trevas e solidão abrigam-se em mim.



Move-se pela angústia

Sorri pelo desespero

Canta pela tristeza



A dureza hoje é da vida, mas há novos espaços.

O coração pode enfim renascer.

Tudo que é novo ocupa o lugar do abismo,

mas ainda chega aos poucos.



Luzes acesas, corpo saindo devagar da escuridão.

Palavras, melodia, canção.

Despedida

Ela mais uma vez dormiu chorando. Não conseguiu esconder o som das lágrimas, mas não revelou o motivo. E chorava por não se sentir amada. Mais que a ausência de amor, entristecia e machucava a velada piedade manifesta nos gestos discretos de carinho.

Jamais por orgulho, mas aquele enorme e intenso animal que batia em seu peito, em meu peito, não permitiria esse pouco, não cabia em si pra tanto sentir sozinho.

Era também uma herança.

Por pouco não se vestiu e foi-se para nunca mais. O tempo em horas se encarregou da despedida. Agradecimento. Não precisa. Se for é com tudo de mim, não com uma pequena parte de sorrisos acanhados e mãos dadas.

Não me basta mais e achei que fosse muito.

Vai dormir chorando outras vezes, até encontrar os braços abertos de um sol que aqueça e torne outra vez dócil esse animal selvagem e devasso. Ou até que alguém finalmente atenda ao pedido de seus olhos quase humanos e o endureça para sempre.