Despedida

Ela mais uma vez dormiu chorando. Não conseguiu esconder o som das lágrimas, mas não revelou o motivo. E chorava por não se sentir amada. Mais que a ausência de amor, entristecia e machucava a velada piedade manifesta nos gestos discretos de carinho.

Jamais por orgulho, mas aquele enorme e intenso animal que batia em seu peito, em meu peito, não permitiria esse pouco, não cabia em si pra tanto sentir sozinho.

Era também uma herança.

Por pouco não se vestiu e foi-se para nunca mais. O tempo em horas se encarregou da despedida. Agradecimento. Não precisa. Se for é com tudo de mim, não com uma pequena parte de sorrisos acanhados e mãos dadas.

Não me basta mais e achei que fosse muito.

Vai dormir chorando outras vezes, até encontrar os braços abertos de um sol que aqueça e torne outra vez dócil esse animal selvagem e devasso. Ou até que alguém finalmente atenda ao pedido de seus olhos quase humanos e o endureça para sempre.

Nenhum comentário: